16/09/2007 - II Seminário de Turismo em Áreas Protegidas traz pesquisa aplicada à realidade local

Importante encontro realizado anualmente na Cairuçu, o II Seminário Regional de Turismo em Áreas Protegidas trouxe para a sede da Associação, entre 14 e 16 de setembro, cerca de 30 monitores ambientais, lideranças locais e gestores do litoral sul de São Paulo (Peruíbe) e litoral sul do Rio de Janeiro (Paraty) para compartilhar os resultados de uma pesquisa sobre saúde da população jovem caiçara. Os resultados permearam todas as discussões do seminário, que teve como tema "Planejamento e Capacidade de Suporte de Turismo em Unidades de Conservação e Promoção da Saúde e dos Direitos da População Jovem Caiçara".

Conjuntamente, a Associação Cairuçu, o Instituto ING_ONG de Planejamento Socioambiental, o Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids da USP (Nepaids) e o Ibama – Parque Nacional da Serra da Bocaina e Área de Preservação Ambiental (APA) de Cairuçu, promoveram o seminário com a visão de que o turismo associado à promoção da saúde da população nativa pode ser um importante vetor de desenvolvimento regional. Isso porque, os efeitos negativos do crescimento do turismo também se fazem presentes, de outro lado, nas relações de dominação das comunidades locais, com aumento do uso de álcool, drogas, exploração do sexo e doenças como a Aids.

"O I Seminário, em 2006, trouxe experiências diversas em turismo com apoio das populações locais para um panorama dessas iniciativas aos monitores, a exemplo das experiências na Chapada Diamantina e Itatiaia. Este ano, buscou-se associar as questões do turismo com o fortalecimento das comunidades, com temas a serem aplicados por eles no dia-a-dia, em Paraty e Peruíbe", definiu Marcelo Guimarães, gerente executivo da Associação Cairuçu. A função da pesquisa sobre saúde da população caiçara, iniciada há quatro anos pelo Nepaids e ING_ONG, foi justamente essa: traduzir os resultados do levantamento com 40 famílias, nas duas localidades, para o cenário do turismo regional.

"A pesquisa-ação garante esse exercício, quando os monitores comentam, por exemplo, que a pesquisa os ajudou a enxergar o que antes não percebiam sobre sua própria realidade. O impacto do turismo na comunidade foi visto sob o ponto de vista da sexualidade, das doenças, das drogas e em como diminuir essas vulnerabilidades. Daí a escolha de duas comunidades semelhantes – Paraty e Peruíbe, que praticam o turismo ecológico, histórico e étnico, para fazer com que se organizem em rede a partir dos resultados", colocou a coordenadora da iniciativa no Nepaids, professora Vera Paiva.

Durante os três dias do seminário foram discutidos temas como Uso abusivo de álcool e drogas e emergências médicas em atrativos turísticos; Cenas afetivo-sexuais envolvendo turistas e nativos, vulnerabilidade ao mercado de sexo e as DST-Aids; A rede básica de saúde e a promoção dos direitos sexuais reprodutivos. Ao final do encontro, os participantes se reuniram para definir uma proposta para o poder público relacionada às demandas de Paraty e Peruíbe frente às DST-Aids. O objetivo é concorrer a verbas do Plano de Ação e Metas (PAM) do Programa Estadual de DST-Aids, representado no encontro pelo técnico Alexandre Yamaçake. Chefe da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, Marcelo Peçanha, também lembrou a importância de levar as solicitações para o Conselho Consultivo da APA – instância representativa da sociedade civil, com autoridade para encaminhar demandas da população ao poder público – cuja Câmara Temática de Turismo será instalada no próximo dia 1 de outubro.

Impacto das drogas
Para ampliar a percepção do uso das drogas e álcool inserido nas relações sociais, a psicóloga Valéria SOBRENOME, discutiu os resultados da pesquisa com jovens caiçaras segundo o impacto das drogas no turismo. Segundo a psicóloga, ligada ao Nepais, a definição de drogas passa pelo uso de substâncias que provêm da natureza para propiciar diferentes sensações, incluindo estimulantes, medicamentos, álcool, entre outros, divididos entre drogas lícitas e ilícitas.

"É importante estar atento para o discurso médico e jurídico que também incita o consumo, por exemplo, de psicoativos. E o consumo massificado dessas substâncias, lícitas e ilícitas, faz parte do cenário do uso abusivo e intoxicação, até chegar nos danos agudos, na dependência e nas conseqüências sociais. No contexto do turismo, o uso abusivo é ainda maior. O monitor precisa lidar com essas pessoas, saber que é o responsável pelo grupo e que deve seguir normas de visitação", analisou Valéria.

Para a líder da Associação de Monitores Ambientais de Peruíbe (AMAP), Walkíria Tércia, o monitor faz parte de uma hierarquia em que também é cobrado, devendo definir o que é ou não permitido. "O fluxo de droga é trazido por quem vem de fora. Em Peruíbe foi interessante o caso de um barqueiro que interrompeu o passeio depois da insistência de um dos turistas em fumar maconha no barco. Em geral, os guias cedem pela pressão financeira", polemizou Walkíria.

Direitos sexuais e prevenção
A psicóloga Renata Belenzani, do Nepaids e do Programa Saúde da Família, discutiu a importância do controle social no direito universal à saúde, que orienta o direito ao planejamento familiar. "Hoje os profissionais se referem à sexualidade mais como transgressão e irresponsabilidade e menos à dimensão afetiva, do prazer, das relações inter-pessoais. A cultura geral da saúde se dá no sentido curativo e não preventivo, antes do problema acontecer", destacou. Entre as narrativas da pesquisa com jovens caiçaras, Renata destacou a da jovem com receio de fazer o teste gratuito de HIV para não se tornar conhecida na comunidade. "Ainda estamos caminhando sobre como construir um acordo mínimo de ética e sigilo".

A discussão sobre prevenção foi seguida da apresentação de Alexandre Yamaçake, um dos responsáveis pelo Programa Paulista de DST-Aids, que reforçou a diferença entre a tradicional visão de 'grupo de risco' para o problema atual centrado no 'comportamento de risco'. "A idéia é a de que todos podem pegar HIV, é preciso trazer a responsabilidade para o indivíduo, reforçando a estrutura municipal de saúde para que os equipamentos de prevenção sejam disponibilizados, reduzindo a vulnerabilidade à doença", enfatizou Alexandre. Ao associar a vulnerabilidade ao ambiente que a proporciona, abordou-se a necessidade de mobilização da comunidade na cobrança do poder público, que deve dispor insumos como preservativos. O jovem Tárcio, da comunidade de Trindade, contou como se reúne com os colegas da ONG Grupo Ecológico Ecoforte, para solicitar caixas de camisinhas e distribuí-las na alta temporada aos moradores.

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