12/05/07 - Crise mundial na pesca já é bem conhecida para pescadores da APA

No início do ano, a Organização das Nações Unidas anunciou em Nairóbi um novo sobre a crise mundial dos estoques de pesca. Segundo o estudo, a pesca comercial pode estar inviabilizada num prazo de 50 anos. Esse problema é algo que vem se agravando nos últimos tempos, como bem sabem os pescadores da APA do Cairuçu.

Conversamos com pescadores de Trindade para saber melhor sobre essa realidade e ficamos sabendo que essa é uma crise que acontece há pelo menos duas décadas, mas que se agravou sensivelmente nos últimos cinco anos. "Antigamente não era tão difícil pegar peixe. Hoje você tem de se arriscar em mar grosso para conseguir pegar 20, 30 quilos", contou César, pescador da Praia dos Ranchos. "Num mar tranqüilo você joga mais de 200 braças de rede, pega só uns 10 quilos e gasta uma hora e meia para puxar."

Robson e Ezequiel também são testemunhas da queda abrupta nos estoques pesqueiros da região. "Nos últimos anos diminuiu bem a quantidade de corvina, cavala e cara-pau. Outros como o peixe-leste nem têm mais", contam. Os pescadores também atestam que o esforço da pesca artesanal frente à diminuição dos estoques se tornou muito maior. "Antes, com 100 metros de rede, a gente pegava o que precisava. Hoje precisa de uns 500 metros. Corvina, por exemplo, a gente pegava três caixas. Hoje pega uma, às vezes meia."

Causas e conseqüências

Pelo que nos contam os pescadores, Parati serve como um ótimo exemplo da crise mundial que acontece em decorrência do excesso da pesca industrial. "A pior coisa que tem é aquela história de parelha. Vem dois barcos puxando uma rede de nn metros, arrastando tudo que tem pela frente: peixe grande, peixe pequeno, ova, concha, cascalho, tudo que é vida marinha", conta Chalo, outro pescador da região.

A rede de arrasto é a grande vilã da história, já que raspa o fundo marinho e não polpa espécies, áreas de reprodução e nem leva em conta o equilíbrio da cadeia alimentar. "As traineiras vêm, pegam um monte de coisa, separam o que interessa e jogam todo o resto morto no mar", disse César.

Ezequiel diz que, nos últimos anos, o Ibama já foi alertado várias vezes para o problema da pesca industrial, mas reclama que os pescadores artesanais não vêem acontecer fiscalização junto a atividades produtivas de grande porte. "O Ibama até hoje só pegou os pequenos e os grandes são sempre anistiados. Você vê por exemplo a marina que estão fazendo no mangue do Jabaquara. Quem é que impediu aquilo?"

Robson ressalta que existe um ciclo vicioso na falta de fiscalização aos grandes barcos. "A pesca industrial acaba forçando os pequenos a uma pesca mais predatória também, para manter o sustento." Esse tipo de situação se torna revoltante para os pescadores artesanais, que sentem a fiscalização mais atuante sobre sua atividade e com desdobramentos mais intensos. "Se o Ibama apreende a rede de um pescador pequeno, ele não vai mais conseguir pescar nunca. Aí vai para a cidade, para a favela." Para o pescador, não pode ter diferenciação de tratamento: "Eu acho que o certo tem que ser para todos e o errado corrigido para todos também."

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