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20/01/07 - Após o caos, Trindade olha para o futuro
Nesse ano de 2007, o Faces do Cairuçu, publicação bimestral que circula em Parati e tem como foco as comunidades da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, irá fazer uma série de entrevistas com os presidentes das associações de cada comunidade para discutir planos e desafios da região. Dando início a essas conversas, falamos com Jonas Alves, presidente da associação de moradores de Trindade.
O tema central da conversa não poderia ser outro: os impactos do turismo sobre a comunidade. O enorme fluxo de visitantes que surgiram esse ano não foi exatamente uma grata surpresa para comerciantes, donos de pousada e habitantes de Trindade em geral. O contingente foi muito superior à capacidade de suporte do local e trouxe uma série de inconvenientes, conforme nos contou Jonas.
Tudo em excesso
"O normal é recebermos entre dez e 15 mil visitantes na alta temporada. Imagino que tivemos no período do reveillon cerca de 20 a 25 mil turistas", disse Jonas com certa indignação. "Todas as pousadas e campings estavam lotados. Houve um excesso de veículos e muitas pessoas paravam na rua e dormiam dentro do carro. E só havia dois guardas para organizar tudo", relata Jonas alguns dos problemas que aconteceram.
Ele conta que no dia primeiro, ele e seu irmão Danilo ficaram das 10h da manhã ao meio dia atuando como guardas de trânsito para aliviar a situação. "Mais tarde eu fiquei sabendo pelo próprio prefeito que ele esteve em Trindade nesse dia e me viu fazendo o papel dos guardas de trânsito." Para Jonas, o ocorrido foi uma prova concreta para o prefeito da dificuldade pela qual passa Trindade. "Fomos abandonados pelo poder público", denuncia.
Lixo e saneamento
Mas o maior incômodo para a comunidade de Trindade foi o lixo. "A quantidade de lixo era muito grande e em alguns dias o caminhão de coleta não conseguia nem entrar na vila para fazer o serviço, pois os carros bloqueavam a passagem." Jonas relatou um cenário perturbador: montanhas de lixo se formaram ao longo da vila, de vias de acesso e mesmo em frente a estabelecimentos comerciais. "Falei com o motorista do caminhão depois da virada e ele me disse que foram recolhidas cerca de 50 toneladas de lixo num período de mais ou menos cinco dias", lembrou Jonas.
O presidente da associação de moradores conta que no início de janeiro foi até organizado um mutirão para recolhimento do lixo mas a chuva no dia dificultou os trabalhos e o resultado ficou aquém do esperado.
Jonas contou ainda que o saneamento básico ainda é um grave problema em Trindade e que se agrava em épocas de alta temporada. "Ainda é comum gente que lança seu esgoto no rio ou lugares que têm fossa mas não fazem o esgotamento. É preciso ter o mínimo de higiene", reivindica. "Estamos negociando com a prefeitura e com o governo federal um projeto de infra-estrutura de saneamento. Isso é urgente!"
Relação com os turistas
Algo que incomodou bastante os moradores e donos de estabelecimento comercial de Trindade foi a difícil relação com os turistas. "É uma pena dizer isso, mas existe um grande problema de falta de educação por parte dos turistas", conta Jonas que várias vezes foi criticado por visitantes ao tentar resolver as situações adversas que surgiam.
O outro lado dessa relação é que num estado tão caótico quanto o que ocorreu no início do ano, Trindade não passa uma imagem boa para os visitantes. "Esse tipo de situação deteriora o turismo e a imagem de Trindade. É muito ruim para nós."
Repercussão
"Se é que tem um lado bom nisso tudo, muita gente viu que desse jeito não dá. Para muitos Trindadeiros quantidade era sinônimo de qualidade. Muita gente tinha essa noção." Jonas diz que ouviu muitas histórias na vila de gente que nem saiu de casa ou de suas pousadas no período e que impediram seus filhos de ir à praia, tamanho era o caos.
Jonas comentou ainda que outra dificuldade a ser enfrentada é a mentalidade interna de parte da comunidade, já que existem alguns donos de pousadas e de restaurantes que não acham necessário investir na sustentabilidade do turismo. Para ele a situação tem mudado aos poucos e o surgimento dos monitores ambientais foi um passo importante, já que começaram a defender a importância de um ambiente sadio na comunidade.
"Agora estamos esperando a 'muvuca' baixar para discutir coletivamente a situação na Associação de Moradores", comenta sobre a situação a partir de agora. "A saída é ver a capacidade de suporte de leito e sanitária e impor uma restrição ao acesso", algo possível de acontecer já que Trindade faz parte da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu. "Queremos fazer uma operação emergencial para o carnaval e depois, no ano que vem, implantar um sistema para valer."
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