05/12/06 - Possibilidades e desafios do ecoturismo na APA do Cairuçu

Ao longo do território brasileiro, diversas unidades de conservação (UCs) já desenvolvem experiências sustentáveis em turismo com o apoio das populações locais. Para oferecer um panorama dessas iniciativas aos monitores ambientais, guias de pesca e agentes culturais da APA do Cairuçu foi realizado nos dias 10, 11 e 12 de novembro o Seminário Regional de Turismo em Áreas Protegidas. Uma iniciativa da Associação Cairuçu, da Secretaria Municipal de Turismo de Paraty, do Sebrae/RJ e do Ibama.

O seminário contou com apresentações como a de José Rafael Ribeiro, da Sociedade Angrense de Preservação Ambiental, que busca implementar uma proposta de ecoturismo na Trilha do Ouro. Trata-se de um conjunto de antigos caminhos para o escoamento do ouro na época do Império que costuram belezas naturais e atrações históricas ao longo do Parque Nacional da Serra da Bocaina, entre Guaianazes (SP), Mambucaba e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Também houve a participação de Sérgio Sarahyba, diretor do Parque Nacional de Itatiaia (RJ), para uma apresentação sobre a evolução do ecoturismo na região. "Estamos procurando uma integração cada vez maior com as pessoas que vivem dentro do parque e em seu entorno", disse Sarahyba dando destaque ao trabalho de condutores de visitantes e ao funcionamento do Conselho Gestor da UC. Outra experiência interessante foi a luta da Associação de Condutores de Visitantes (ACV) do Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) pelo reconhecimento e aprimoramento de seu trabalho, relatada por Rogério Mucugê, integrante da entidade e do Grupo Ambientalista da Bahia (Gamba).

Virando o jogo

Sem dúvida, a experiência mais fascinante apresentada durante o seminário foi trazida por Ezequiel de Oliveira e Ezequiel Filho, integrantes da Associação de Moradores da Vila de Maruja – Ilha do Cardoso, e Cláudio Bernardo, da Associação de Monitores Ambientais de Cananéia, no litoral sul de São Paulo. A mudança de uma situação de degradação ambiental, ameaça de permanência das comunidades na região e perda de valores culturais para uma situação de organização e construção de um cenário sustentável de turismo e desenvolvimento regional foi bastante inspiradora para os participantes da APA do Cairuçu. "A cultura caiçara é o fator de preservação do Parque Estadual da Ilha do Cardoso. A população só não foi retirada no passado, porque era tradicional. A cultura foi literalmente nossa raiz", ressaltou Ezequiel Filho.

O seminário contou também com apresentações de Eliana Simões sobre as experiências de educação ambiental desenvolvidas no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar (SP) e de Ana Lopez sobre a iniciativa de capacitação e certificação realizada pelo Programa de Turismo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Um ponto alto de todo o seminário foi a participação do novo diretor da APA do Cairuçu, Marcelo Peçanha, que propôs um diálogo diferenciado com as comunidades da região, colocando-se aberto para parcerias, interação por meio do Conselho Gestor e a construção conjunta de um cenário de desenvolvimento sustentável na região. "Se antes a porta estava fechada para vocês, agora eu arranquei a porta", afirmou sob aplausos dos participantes.

Olhar crítico

Apesar do conjunto apresentado de boas práticas brasileiras em ecoturismo, não foi deixada de lado a importância de um olhar crítico em relação a efeitos negativos do turismo sobre comunidades locais. Alessandro de Oliveira Santos, do Instituto ING-ONG de Planejamento Socioambiental, levou aos participantes uma perspectiva de como o turismo pode abrir espaço para a dominação e exploração dessas comunidades, com base em cenários de vulnerabilidades associados ao sexo e ao abuso de álcool e drogas ilícitas e emergências médicas em áreas turísticas.

Para concretizar essa discussão foi realizada no último dia do seminário uma animada dinâmica em que os participantes recriaram cenas do cotidiano caiçara relacionando turismo, sexo e uso de drogas, com apoio de uma equipe coordenada pela psicóloga Cely Blessa. Ao final do evento, Adriana de Souza Lima e Samuel Soares, monitores ambientais do Grupo Ecológico Guaraú, de Peruíbe (SP), promoveram um debate com grupos de homens e mulheres sobre saúde sexual e prevenção às Doenças Sexualmente Transmissíveis, como a AIDS.

Planejamento

No segundo dia do seminário foram realizadas oficinas de planejamento por meio de grupos de trabalho. O objetivo foi reunir de um lado monitores ambientais e guias de pesca esportiva para levantar discussões e encaminhamentos que permitissem aprimorar o trabalho com atrativos naturais, bem como sua regulamentação e credenciamento junto às Unidades de Conservação locais.

Do outro lado estavam artesãos e agentes culturais de Parati para discutir a exposição e o comércio de produtos típicos da região, além de estruturar um calendário de eventos culturais para 2007 que permitisse pensar estratégias de ação, como a Temporada de Verão.

Essas discussões geraram uma série de metas com as quais artesãos, monitores ambientais e guias de pesca estarão envolvidos a partir de agora para avançar no desenvolvimento sustentável das comunidades de onde vêm e da região como um todo.

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